A Poesia de Abril na sala de aula

Visitas: 1781

Inserido no âmbito das comemorações dos 40 anos da Revolução do 25 de Abril de 1974, no dia 23 de abril, no início das aulas das 10h:10m e 15h:10m, foi lido (e distribuido um marcador a cada aluno), pelos alunos de filosofia, em todas as turmas, o poema de Jorge de Sena, «Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade», iniciativa conjunta do Clube de Filosofia e do Clube da Oralidade. Foi também distribuido a cada aluno um marcador com poema.


Aqui fica o poema:



«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»

 

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos

reinaram neste país,

e conta de tantos danos,

de tantos crimes e enganos,

chegava até à raiz.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Tantos morreram sem ver

o dia do despertar!

Tantos sem poder saber

com que letras escrever,

com que palavras gritar!


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Essa paz de cemitério

toda prisão ou censura,

e o poder feito galdério.

sem limite e sem cautério,

todo embófia e sinecura.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Esses ricos sem vergonha,

esses pobres sem futuro,

essa emigração medonha,

e a tristeza uma peçonha

envenenando o ar puro.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Essas guerras de além-mar

gastando as armas e a gente,

esse morrer e matar

sem sinal de se acabar

por politica demente.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Esse perder-se no mundo

o nome de Portugal,

essa amargura sem fundo,

só miséria sem segundo,

só desespero fatal.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.


Quase, quase cinquenta anos

durou esta eternidade,

numa sombra de gusanos

e em negócios de ciganos,

entre mentira e maldade.


Qual a cor da liberdade?

E verde, verde e vermelha.


Saem tanques para a rua,

sai o povo logo atrás:

estala enfim altiva e nua,

com força que não recua,

a verdade mais veraz.


Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

 

Jorge de Sena | abril de 1974